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Publicado em: 23 Junho 2025

Levar o mundo connosco: a internacionalização como gesto de consciência

Artigo de opinião de Olga Pereira, docente do Mestrado em Gestão e Internacionalização de Empresas da Escola Superior de Tecnologia e Gestão do Politécnico do Porto.

Internacionalizar nunca foi apenas uma questão de escala. Hoje, isso é mais evidente do que nunca. Expandir fronteiras não significa só entrar em novos mercados, deve implicar também os princípios que levamos connosco, e que preço estamos dispostos a pagar por não os abandonar.

A carta enviada recentemente pela Embaixada dos EUA a várias empresas portuguesas com contratos com o Governo norte-americano expôs um novo tipo de diplomacia económica. As empresas foram confrontadas com um ultimato: ou abdicam de políticas internas de diversidade, equidade e inclusão (DEI), ou arriscam perder contratos com os EUA. Em nome de uma suposta neutralidade, exige-se que deixem de praticar a justiça social dentro das suas estruturas.

Não é um pedido técnico de verificação contratual. É um gesto político. E, mais do que isso, é um teste. Às empresas. Ao Governo. Ao país.

Face à pressão, o Governo português optou por um silêncio cúmplice. O ministro da Economia desvalorizou o incidente, afirmando que “não há conflito de valores” e que o essencial é fortalecer os laços com os EUA. Haverá maior belicismo do que abdicar, sem debate, de princípios que moldam a nossa vida em sociedade?

Internacionalizar, em 2025, exige mais do que músculo financeiro forte ou capacidade legal. Exige ética, consciência histórica, e um compromisso claro com a criação de valor partilhado. Exige saber que as empresas não são estritos veículos económicos, são também agentes culturais, portadoras de valores e tradutoras do mundo.

O que está em causa neste episódio não é apenas o futuro das políticas de diversidade em Portugal. É a soberania de um país perante pressões externas. É o direito de uma organização decidir, de forma autónoma e consciente, que tipo de impacto quer ter no mundo. Levar o mundo connosco não pode ser um gesto de cedência, tem de ser um gesto de consciência.

Outros países europeus, como França ou Bélgica, reagiram com firmeza. Em Portugal, o desconforto ficou sobretudo nas mãos da Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego (CITE), sindicatos e associações cívicas. Mas esta não pode ser uma batalha delegada. A retórica do crescimento ensinou-nos que estar “lá fora” é sinal de sucesso. Mas num mundo à beira da exaustão ambiental, social e simbólica, é urgente perguntar: crescer para onde? Expandir o quê? Levar o quê, e com que implicações?

A cultura organizacional não deve ser apagada à porta das alfândegas. Escutar os outros não implica calar quem somos. Mais do que "estar no mundo", trata-se de pensar o mundo e o nosso lugar nele. A internacionalização não é um gesto neutro empresarial. É um ato político.

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